quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Nem todos os caminhos conduzem à Iluminação!


Não, nem todos os caminhos conduzem à iluminação. Nem tudo é "teosofia". E sim, há caminhos para a Verdade

por Alaya Dullius

Quando compreendemos que há uma sabedoria imanente, perene, que é subjacente a todas as tradições espirituais idôneas, estamos dizendo que reconhecemos a unidade que permeia toda a manifestação de vida, que percebemos a existência de uma Sabedoria Divina, uma Gupta Vidya, que é a base fundamental das grandes religiões e tradições filosóficas de nosso mundo, a isto chamamos tradição-sabedoria.
Ainda que em suas roupagens externas, em sua linguagem, “sistemas” e “metodologias” encontremos muitas diferenças, à medida que nos aprofundamos nesses caminhos vamos percebendo como as diferenças são apenas de estrutura de linguagem, de grau de entendimento, de abordagem, cultura e época, mas que apontam para um denominador comum, o pico da montanha da sabedoria, o cume da iluminação.  


Portanto, ainda que em seu trajeto inicial alguns caminhos comecem em terrenos pantanosos e outros em densas florestas, ainda que alguns cruzem rios e outros escalem cachoeiras ou tenham que lidar com as dificuldades do deserto, esses caminhos, quando apontam para o mesmo pico nevado, terminarão descrevendo a mesma realidade a medida que dela se aproximam, mudam apenas os detalhes da trilha.

Esse elemento de unidade é o que chamamos de Sabedoria Universal, e ao pressupor a existência dessa Verdade Una que está acima das religiões, passamos a compreender que o que a Teosofia chama de “ramos da Fraternidade” são esses caminhos – válidos -- que levam ao cume do saber e da libertação do sofrimento. À medida que estudamos, aprendemos quais são alguns desses caminhos, e por afinidade de alma e coração, por estilo interno e raio de atuação, passamos a ter mais afinidade com um ou outro desses caminhos. E assim podemos empreender nossa jornada!

Sabemos por exemplo que existem fraternidades secretas que buscam a preservação desses ensinamentos, desses “mapas da trilha”, de modo que o mapa não seja alterado, e possa continuar a ser usado por todos os viajantes espirituais, sem que se percam. Mas sabemos também que há aqueles que têm claro interesse no “roubo” desses mapas, e que, rasurando, desenhando em cima, e alterando o rumo, vendem chumbo pintado, fingindo ser ouro... e pobre daquele que compra um mapa adulterado, as vezes embalado de maneira mais ‘profissional’ que aquele velho papel amarelado e batido...

Sabemos que nessas fraternidades há guias experientes dos mais elevados graus, e que eles não caminharão por nós, mas podem nos auxiliar nessa jornada. Sabemos que no mundo perpetuaram (e perpetuam ainda) ensinamentos que chamamos de, por exemplo, budismo mahayana, cristianismo e gnosticismo, maniqueísmo, hinduísmo, yoga de Patanjali, orfismo, zoroastrismo, pitagorismo, platonismo. Chamamos seus mapas de taoísmo, vedanta, islamismo sufi, drusos, cabala cristã, rosacrucianismo, hermetismo, etc.

Sabemos que são reflexos também das chamadas “Escolas de Mistério”, que foram surgindo e se preservando à medida que a humanidade de ciclos anteriores passou a se degenerar e usar o conhecimento para fins escusos. Essa degeneração é relatada como decorrente do uso indevido dos poderes latentes em nós, do abuso de práticas animistas, voltadas à busca de poder pessoal, egoísta. A degradação é decorrente da manipulação energética-psíquica para fins de autogratificação ou até mesmo causar mal a terceiros. À medida que os seres humanos se perderam no universo de deleites egoístas dos planos inferiores da manifestação ansiaram por ter poder uns sobre os outros, o conhecimento fechou-se e foi tornando-se cada vez mais esotérico, pois assim o caminho não seria perdido.

Assim, o mapa seria preservado, e aqueles que ainda sentem em seus corações a chama audaciosa do libertar-se de si mesmo em busca da luz divina que em nós habita, incentivados por uma motivação de amor e compaixão por todos os seres -- estes ainda poderiam ter acesso a esse caminho, mas antes, deveriam purificar-se de toda vilania, intenções autocentradas, motivações egoístas, e atitudes mesquinhas de vida que “poluem” corpo e mente.  Fala-se muito no provérbio de “não atirar pérolas aos porcos”, com um sentido de desprezo ao outro, o que é muito negativo. Porém esquecemo-nos do outro trecho “não deis aos cães o que é santo, para que não pisem e, voltando-se contra vós, estraçalhem”.



E é isso que ocorre nas tradições espirituais. Os mapas da Montanha Sagrada são preservados para que não sejam estraçalhados por aqueles que ainda possuem motivações egoístas, ainda que por vezes pareçam “refinadas” e estejam disfarçadas de amor ao próximo. Ao preservarmos o mapa, ajudamos o caminhante sincero a ainda ter acesso à estreita porta que leva aos Céus.

Por compaixão os instrutores que conhecem esse íngreme caminho nos chamam a participar da jornada, mas antes precisamos limpar nossos corações e ter certeza da motivação ao começar o primeiro passo. Pois assim que caminhamos surgem aqueles “vendedores ambulantes” prometendo fórmulas que ao ingerirmos vão “melhorar nossa resistência ao caminhar”, facilitar, acelerar... surgem aqueles que querem te vender coisas que você não precisa, equipamentos “mais modernos”, e estes só serão peso acumulado na sua mochila. Ou então te entregam “mapas novos” pois aquela trilha lá foi “fechada pelo mato” (assim dizem, apesar de não ser verdade). Surgem os “sherpas” se oferecendo para carregar o peso por você, você só precisa oferecer algumas coisas a eles, nem sempre é seu dinheiro... Há muitas distrações no inicio do caminho. Há muitos tentando tirar vantagem do caminhante, e muitos caminhantes desistem da jornada e resolvem se juntar aos vendilhões da trilha, tirando uma falsa vantagem pessoal nisso – falsa, pois a lei do karma não tardará a ser aplicada.

No andar da Senda Espiritual o importante é não perder a meta de vista. Alguns até oferecem serviços de guia na trilha, mas estão “fazendo bico”, não passaram pela “formação”, não sabem agir no caso de emergências. E sabemos bem o que acontece quando um cego guia outro cego.  Outros começam bem seu caminhar, bem intencionados, mas acabam em trilhas sem saída, esquecem-se da montanha e seu pico ensolarado, e resolvem ficar analisando as árvores da floresta, as criaturas do pântano pelo qual a trilha corta, ou as pedras daquele morro onde pararam para descansar. Confundem a meta e ficam ali, esquecidos da motivação inicial, às vezes incentivados por um guia que adora colher amostras de plantas aquáticas, observar os girinos, ou olhar os pássaros em suas árvores, tornam-se especialistas naquelas regiões, mas ali se esquecem... e quantos anos ficam analisando o terreno, enquanto seus pés fincados no lodo afundam a cada dia que passa, e quantas cobras não rondam essas águas lamacentas...

Assim, ainda que no dito popular todos os caminhos levem a Roma, isso não é verdade quando falamos do trilhar espiritual. Perceber que há muitos caminhos válidos, reflexos da mesma luz divina, certamente nos leva a uma atitude de maior tolerância e fraternidade para com todas as pessoas. Perceber que diversas tradições espirituais são mapas de acesso à mesma Sabedoria Universal, e que seus caminhos são apenas faces diferentes daquela montanha em cujo cume brilha o Sol da Vida, faz com que tenhamos mente aberta para aprender com nossos irmãos, que seguem outras religiões ou filosofias; faz com que possamos enxergar que o caminho é possível a todos, e que há uma luz divina habitando em cada um de nós.

Entendemos que a linguagem e cultura que cada tradição se manifesta é uma roupagem externa, e que ao nos abrirmos ao estudo comparado das tradições, não são as roupas que estamos comparando -- isso seria superficial e reducionista, para não dizer tolo. É no aprofundamento e real compreensão da tradição que vamos aos poucos deixando a canoa para trás, quando conseguimos atravessar o rio, quando o ensinamento se torna parte de nossa vivência. É no profundo que a comparação é feita, é no profundo que a reta compreensão ocorre. Um “ecumenismo” por cima é apenas um rolo compressor que destrói a meta do mapa e tenta homogeneizar coisas que nem sempre se equalizam. E que não devem se equalizar.


Portanto, admitir que haja muitos caminhos válidos, que merecem ser estudados, que nos instigam a uma atitude de fraternidade e respeito para com toda a humanidade, não é o mesmo que admitir que todos os caminhos levem à meta nem é dizer que a Verdade é uma terra sem caminho -- isto seria esquecer-se de todos os Mestres que ao longo dos séculos se esforçam para manter acessa a luz de seus mapas e seria achar que precisamos reinventar a roda, redescobrir o fogo; uma grande petulância, como sair como um capitão do mato cortando a vegetação densa com facão quando há caminhos possíveis, prontos para serem seguidos, basta que você tenha a humildade de se comprometer com o serviço.

Não, nem todos os caminhos levam ao pico montanhoso. Nem tudo que reluz é ouro. Nem tudo que aparenta ser espiritual é válido. Alguns caminhos te afastam da montanha. Alguns aparentam se aproximar e terminam no meio da jornada, em algum deserto sem vida, em algum pântano de enganações.
Em ciclos anteriores da humanidade ensinamentos foram deixados para trás, e seus resquícios lutam em permanecer ativos ainda hoje, mas se é que algum dia tiveram algo luminoso em si, hoje são uma casca de animismo psíquico e devaneios do plano astral. Há caminhos que se ocupam com as camadas inferiores da manifestação, que se entrelaçam dando voltas e voltas nas camadas do mundo sensível, mais confundindo do que guiando. Há caminhos que não ensinam o ser humano a se libertar do que em teosofia chamamos de “quaternário inferior”, do que no gnosticismo chamamos de “o mundo dos arcontes”, não, eles mantém o incauto preso, dominando técnicas desses subplanos, mas nunca libertando a alma para o Pleroma, para o mundo Inteligível, para além dos grilhões do ego e da auto-ilusão.

Insistem em chamar de espirituais planos psíquicos inferiores, ainda dominados pelo maya da ignorância. Confundem os arquétipos divinos com entidades astrais, e chamam de “deuses” aqueles que como vampiros sutis se alimentam da energia de desejo e ganância dos viventes. Suas promessas de serem um método mais rápido, natural, sem auto sacrifício, agradam o ego. Mas a Doutrina Secreta nos ensina que o universo é cíclico, e que alguns ciclos devem terminar. Aquilo que deu errado e afundou civilizações inteiras em um pesado karma devido à prática do que hoje chamamos “feitiçaria” não deve ser reavivado nem equiparado às tradições de mistério que verdadeiramente libertam a alma através da magia divina e do caminho altruísta. Aquilo que em diversos povos e civilizações voltou-se a praticas de fetichismo, “magia cinzenta”, domínio sobre poderes sutis para fins pessoais e uso de práticas que envolvem substâncias ou o uso de elementos de material etérico não é o caminho proposto pela Sabedoria Divina.

O caminho da luz parte de uma chama interior no centro da caverna do coração, e a única coisa que pode auxiliar que cada buscador em sua jornada não se perca entre as diversas trilhas, caminhos falsos, vegetações densas, e vendilhões enganados ou mal intencionados, é Viveka, a jóia do discernimento. Não é possível servir a dois reis, disse um Mestre certa vez. É preciso separar o joio do trigo, identificar o lobo em pele de cordeiro, não cair na lábia dos falsos profetas, dos xamãs da selva de pedra, dos gurus da modernidade. É preciso ter plena atenção, foco no pico da Luz, e muito discernimento. À medida que avançamos na trilha, passamos a ver quantas armadilhas evitamos, e quantas caímos. Feitiçaria é feitiçaria, mesmo pintada de purpurina para agradar a relatividade das personalidades. O mundo dos arcontes tenta agradar, mas não é o Pleroma Celeste, não conduz ao Nirvana.


No seu caminhar, ninguém pode carregar sua mochila por você. Que um coração amoroso, um desapego de si mesmo, e a luz do discernimento possa te guiar. Não há nada mais nobre do que a oportunidade de servir à humanidade através da compaixão e do despertar da sabedoria. Que sua alegria seja a luz de Viveka guiando teu coração.



******--- Acompanhe amanhã, postarei de um convidado anônimo, um aprofundamento no entendimento do que é de fato "feitiçaria", a partir da perspectiva da Magia Divina

CLIQUE NO LINK https://viveka1.blogspot.com/2020/02/entendendo-melhor-o-que-e-feiticaria-em.html


7 comentários:

  1. Excelente texto, Alaya. Pode alertar aqueles que se interessam por "métodos rápidos" sobre os riscos das "sendas súbitas", normalmente desprezados de forma afoita, infantil e arrogante por seus seguidores. Se a Sabedoria Perene recomenda o caminho da "senda gradual" ("LamRim"), como alternativa segura às "sendas súbitas", cabe ao caminhante cultivar seu discernimento (Viveka) antes de fazer a sua escolha...

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    1. Obrigada! Me preocupa mesmo o crescente discurso sobre iluminações súbitas e métodos rápidos, onde não há nenhum cultivar de olhar para si mesmo, com ponderação, com o cultivo de virtudes e a geração de condições para que algo realmente possa frutificar. E onde, ao mesmo tempo, há um desprezo ao trabalho de séculos arduamente sustentado. Da mesma forma crescem as buscas por substâncias externas que possam "abrir a consciência", crescem os "xamãs de cidade", e um incentivo a diversas práticas que divergem muito da teosofia. Cada pessoa é de fato livre para fazer suas escolhas, mas creio que devemos ter clareza ao escolher, para não virar uma mistureba simplesmente para que isto agrade nossas predileções pessoais, numa tentativa de relativizar a teosofia e dobra-la às vontades de alguns indivíduos. Um abraço!

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  2. Parabéns Ayala, vale o alerta para as pessoas não se deixar levar por promessas, o caminho é arduo e pessoal

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  3. Eu não entendi tudo, mas gratidão por me ajudar a refletir!!

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