A Gnosis da Mente
Alberto Brum de Souza
Os filósofos herméticos, os discípulos de Hermes Trismegisto, falam da antiga fé egípcia como sendo a religião da mente, que é, ao mesmo tempo, a pura Filosofia e a verdadeira Ciência.
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O genuíno hermetismo reunia a busca mística (bakti) com a busca intelectual (jnana). E não existia oposição entre Religião e Ciência, como veio a ocorrer mais tarde. A transmutação da consciência, o buscar a luz e o experimentar a Realidade se complementavam.
Gnosis não é meramente conhecimento, como o sentido literal desta palavra grega indica. Gnosis é percepção espiritual, é a Sabedoria que é fruto do autoconhecimento. Já o gnosticismo é somente uma parte, um departamento de algo maior que inclui o conhecimento especulativo, mas que estende-se até a identificação com a "essência das-coisas-que-são" — termo usado por Pitágoras ao referir-se a Gnosis.
No capítulo O Significado de Gnosis do livro 'Quests Old and New', G.R.S. Mead esclarece este ponto, enfatizando que "Gnosis não é conhecimento intelectual".
"Gnosis é, necessariamente, gnosis de alguma coisa, mas de quê?". Com base em antigos textos, diz o autor que "a resposta dada pela maioria de nossas fontes é idêntica: ela é finalmente gnosis de Deus"2. Nisto há uma identificação com Clemente de Alexandria, nas Stromatas, que diz que Gnosis é o "conhecimento científico de Deus".
Na literatura trismegística Gnosis é chamada de "a religião da Mente". Mas deve ser entendida a palavra "mente" como a Mente Divina. No aspecto cósmico e metafísico Hermes ou Thot é Mercúrio, o deus da Sabedoria, o "Logos de Deus".
A religião da Mente também é a "verdadeira Filosofia" ou o "amor à Sabedoria", o que sugere uma forma elevada de misticismo. No Poimandres a Mente Divina é chamada de Amor Divino. O amor à Sabedoria é imprescindível, como diria Pitágoras, para se chegar à "Sabedoria do Amor" ou, substituindo-se o termo, à "Sabedoria do Amor Divino".
H.P. Blavatsky, na Doutrina Secreta, indica que a "Sabedoria do Amor" ou Filosofia "significa atração e amor por algo oculto e subjacente nos fenômenos objetivos, e o conhecimento de tudo isso"3! Assim, Filosofia implica amor e assimilação à Divindade. Encontramos, aqui, uma relação com a palavra Teosofia (Sabedoria Divina). Este termo surgiu a partir da Escola Neoplatônica de Alexandria e foi usado por Clemente de Alexandria. Salienta G.R.S. Mead que "Theosophia é somente um posterior e mais preciso termo para designar a extensão de idéias as quais foram reunidas no tempo de Pitágoras pela palavra Filosofia".
"A Gnosis da Mente é de uma natureza espiritual, pois ela é operada pelo princípio espiritual no homem"5"! Num texto hermético lemos que a gnosis da Mente é a "visão das coisas divinas". Mead acrescenta que "Gnosis não é conhecimento sobre alguma coisa, mas comunhão, conhecimento de". Este é o grande objetivo, conhecer "Deus" — a Realidade
Isto sugere que a Mente é o instrumento e ao mesmo tempo é o "mistério dos mistérios", pois a Mente é o verdadeiro homem.
"A Mente não é somente aquilo que conhece, mas também o objeto de todo o conhecimento. Ela cria-se a si mesma para autoconhecer-se."6
Nos diz a Filosofia Esotérica que a Mente (Manas) é o veículo da alma espiritual (Buddhi) e um reflexo de Mahat (a mente universal). Ela é "o Grande Iniciador, é o Mestre de todos os domínios". Desse modo, é mais clara a afirmação do autor quando diz que a Gnosis "inicia, continua e termina no conhecimento do próprio Eu, o reflexo do Conhecimento do Ser Uno".
O "conhece-te a ti mesmo" é a essência do trabalho do aspirante à Gnosis. E o genuíno gnosticismo é a Filosofia Esotérica, gerada pela experiência e compreensão de Mentes Superiores. Então, não é errado dizer-se que a "religião da Mente" é a verdadeira Filosofia e a verdadeira Ciência. Na Doutrina Secreta, H.P. Blavatsky diz que Gnosis é "a Ciência do Eu Superior" e o neoplatônico Jâmblico, em sua obra Sobre os Mistérios, refere-se à Teurgia como "a Ciência Sagrada". Mas não é só Ciência e Filosofia, também é Religião-Sabedoria.
Sendo a Mente "o verdadeiro homem", sua meta é ser pura consciência e "seu destino final é tornar-se a Mônada das mônadas, ou a Mente de Deus". Por isso, alguém só é gnóstico quando "renasce" em espírito e inicia a Senda que o conduz à identificação com a Mente Una.
A manifestação histórica dessa Sabedoria, que floresceu especialmente entre os séculos I a.C. e II d.C., conhecida como "Gnosticismo" foi um mero reflexo. Apresentou-se como Gnose Hermética ou Gnose Cristã e "pode-se aprender muito comparando-se a Teosofia dos gnósticos herméticos com a Teosofia dos gnósticos cristãos", porém são fragmentos da genuína Gnosis — "ela é a única salvação para o homem — a Gnosis de Deus".
Não é a crença, a fé ou o simples conhecimento o que importa. O fundamental é a comunhão interior, o religar da Mente individual com a Mente universal, a capacidade do homem "transcender os limites da dualidade que faz dele homem e tornar-se uma consciência divina".
Este é o "Caminho para a Montanha" ou para o Olimpo e "a ignorância de Deus é o verdadeiro ateísmo".
NOTAS E BIBLIOGRAFIA
1 — O objetivo desta coleção era servir de introdução ao estudo da literatura gnóstica mais adiantada, da qual se destacam duas obras de sua autoria: Thrice-Greatest Hermes — studies in Hellenistic Theosophy and Gnosis (1906 — reeditado em 1978 por Hermes Press, detroit, USA) e Fragments of a Faith Forgotten (1900 — reeditado por University B00ks, New York, 1968).
2 — Editora G. Bell and Sons, Londres, 1913, p. 182.
3 — Ed. Pensamento, vol. V, p. 255.
4 — Extracts from the Vâhan, publicado por The Theosophical Publishing Society, Londres, 1904, p 336.
5 — Quests Old and New, p. 184.
6 — The Gnosis of the Mind, Theosophical Publishing Society, Londres, 1906, p. 15.
Logos, Nº15, Revista do Centro Teosófico de Pesquisas
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sábado, 29 de fevereiro de 2020
A Gnosis da Mente
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Criticar é feio, seu intolerante!
Não pode criticar nada
Alaya Dullius
Quando temos medo de apontar os erros, e dizer “isso é bom”,
“isso é ruim”. Quando temos medo de dizer “isto está errado”, no fundo podemos
estar com medo de que apontem os nossos erros.
Mas se não tenho medo de tentar perceber o caminho,
discernindo, lapidando a joia e tirando as sujeiras, se não fizermos esse
exercício, perdemos no caminhar, e deixamos de ser verdadeiros com nossa alma e
passamos a buscar o conforto da personalidade, que não quer errar, que quer
agradar, que quer aplauso. Porém assim deixamos passar as ervas daninhas, e as
flores podem acabar sufocadas por nossa pretensa “tolerância” à ervas daninhas.
Quando deixamos de apontar um erro, também deixamos de
permitir que apontem o nosso, como uma projeção psicológica. “Não posso falar
que isso está errado, vão poder dizer que eu estou errado”.
Se nosso objetivo é buscar a verdade que liberta e não a que
aprisiona na personalidade, então tudo bem, através do senso crítico, do
estudo, e da meditação, eu posso não ter medo de falar aquilo que tenho para
mim como real ou falso. E posso errar, pois se estou na busca não tem problema
eu errar.
O problema seria negligenciar os amigos e colegas de busca ao me
calar, omitir, e deixar de falar o que realmente penso ou aprendi no estudo só
para não ferir o ego de alguém, para não machucar o apego de alguém a alguma
ideia. A Verdade não permite apegos. Se estamos apegados, não estamos libertos.
Se estamos apegados a um autor, mesmo que vejamos
explicitamente que ele cometeu erros, morais, de vida, conceituais em relação
ao caminho, onde encontramos contradição com outros autores que respeitamos. Se
agimos assim, então parece que estamos tentando, por uma dissonância cognitiva,
forçar que os dois concordem, por que não conseguimos admitir que haja um
erro.. assim estamos perdendo ao descobrir nosso caminho, acabamos por
‘espalhar a poeira’ para fingir que tudo é igual. E não tem problema não ser
igual.
Se a gente tem a audácia de fazer esse exercício de viveka,
então podemos discernir. É preciso que haja uma joia do discernimento. Se não o
temos, não podemos lapidar o nosso diamante interior, e ai ele não brilha, e o
confundiremos com o ouro dos tolos.
Deveríamos deixar de fazer as coisas só para agradar ao
outro ou nossa própria personalidade, que não quer olhar para seus próprios
erros? Se não entramos nesse jogo psicológico, então podemos dar um passo para
frente no caminho.
E quando damos esse passo, percebemos que há um compromisso
muito maior com a busca, uma busca muito autentica e sincera. Dizia Hodson que
a falta de sinceridade na alma é o que mais mata o buscador. Pois travestimos
nossas intenções, dizemos que estamos em uma busca espiritual, mas estamos
buscando aplausos, clientes, cargos, influência, dinheiro. Estamos buscando
satisfazer desejos de um ego infantil, carente, que quer ser enxergado, que
quer ter uma posição de ‘destaque’... Que às vezes precisa de terapia
psicológica, como muitos precisamos e faz parte da jornada da alma. Mas
transferimos isso para um discurso espiritual como se isso fosse resolver
carências emocionais básicas.
O caminho espiritual trás felicidade quando trás
autoconhecimento e uma sensação maior de estabilidade mental e propósito na
vida. Mas se usamos a espiritualidade para outros fins (e só nos sabemos nossos
motivos, mas é preciso honestidade ao se auto observar)... mas se é para
satisfazer nosso ego, se é para ser aplaudido ou ter mais seguidores ou ter um
cargo importante, com uma roupa especial, ter uma posição de liderança.. ou se
queremos nos passar de ‘santos’ e influenciar e manipular pessoas à nossa volta
que nos nutrem com elogios e bajulações... – todos sabemos que temos vícios e
perturbações mentais, um pouco de meditação mostra isso bem para qualquer um,
devemos ter coragem de encarar nossos vícios de frente ao invés de trata-los
como nossos bichinhos de estimação...
Se colocarmos a nossa energia assim, e deixamos de focar no
essencial e o verdadeiro... nos perdemos. Se tivermos medo de dizer “antes eu
tinha certeza de algo, agora não tenho mais”. “Antes eu ia por esse caminho
agora vejo erros nele”, “Esse autor me fez muito bem no passado, e colhi os
frutos disso, e que bom que encontrei ele na minha vida, mas agora percebo que
ele não é tão bom assim, vou procurar outro”. Tudo bem, não devemos nada a
ninguém nessa vida, nesse sentido. Não precisamos justificar ações erradas de
um pseudo-guru ou ser conivente para abusos que acontecem só porque aquela
pessoa virou um escritor famoso ou um “líder” em alguma instituição dita
espiritual.
Nosso compromisso deve ser com nossa alma, com a busca da
Verdade e com o compromisso que temos de, se não pudermos ser o sol, sermos uma
pequena vela, iluminando o caminho. Se tivermos condição de ajudar algum irmão
que precise de um pouco mais de luz que nós, se nos calarmos, cometemos o
pecado da omissão, pois todo sofrimento deve ser auxiliado.
Não adianta buscar sucesso e fama e querer ser o que não
somos. As máscaras caem. O karma é infalível, e em algum momento todo esse sucesso retornará
como lição.
Não é um exercício de generosidade nem de compaixão quando
deixamos de falar o que achamos ser o certo, só para evitar o conflito, ou a
“mágoa” do outro. No sentido de que se nossa intenção NÃO é ferir, então é possível
comunicar. Até quando vamos preferir as mentiras confortáveis versus as
verdades desconfortáveis?
No budismo há a ideia de reinos de existência. E uma das
coisas que acontece com quem tem muito karma positivo, pratica boas ações e tem
acúmulo de mérito, é que essa pessoa pode renascer no reino dos deuses. Um
local de muito prazer, sem sofrimentos. O único sofrimento é saber que aquilo
vai acabar um dia, pois o karma ainda está agindo dentro do samsara. Se
permitimos que a pessoa só fique confortavelmente com as suas verdades pessoais
e nunca seja confrontada e questionada, e nunca possa olhar para si mesmo como
‘cometi um engano’, se nunca pode debater ou ser corrigida; ela esta presa no
universo de deleite, ela não cresce. O que nos faz crescer é a experiência, é o
ensinamento, mas é o sofrimento também.
Não há crescimento sem transmutação, sem “batalha interior”,
sem se auto confrontar, precisamos ver como nossas opiniões e visões são
dependentes da nossa personalidade, são impermanentes, e são condicionadas pelo
modo como fomos criados, como enxergamos o mundo. E até mesmo nossas questões
emocionais mais profundas influenciam como a gente absorve ou não um
ensinamento. Então, se deixamos de falar, para agradar, para “não criticar”
(como se isso fosse feio)... “ai, não pode falar mal”... vivemos numa sociedade
que tem pavor de crítica, pavor de debate, de ser contrariada.. Se agimos assim
estamos impedindo as pessoas de crescerem, e impedindo a nós mesmos.
Estamos impedindo que nós mesmos cresçamos quando não nos
auto avaliamos, e deixamos de dar oportunidade de debate, de mudar de opinião,
de perceber um erro às vezes... pois só concordar e ficar numa atitude ‘pseudo
ecumênica’, porque teosofia não é um ecumenismo forçado que tudo tem que estar
de acordo com tudo -- existem sim diferenças. Quando HPB diz que “Não há
religião superior à Verdade”, que é na verdade uma fala sânscrita, o que ela
diz é que a mesma verdade é expressa por tradições idôneas ao redor do mundo e
ao redor dos séculos. Ela não está dizendo que não existem coisas falsas, que
não existem erros. Nem tudo vai ser válido no nosso caminhar. Nem tudo
precisamos acatar. Nem tudo merece ser ouvido e estudado.
É uma enorme falta de generosidade quando não permitimos o
confronto de ideias, o debate, a discordância, o apontamento de enganos, e
simplesmente darmos espaço... não estou dizendo que “nossa verdade é a verdade
e a dos outros não é” , mas se não estamos abertos à possibilidade da
existência do erro, então não podemos crescer.
A crítica é muitas vezes necessária, não devemos,
melindrosos, temê-la. É o ego que a teme. Os mahatmas são extremamente
críticos, e ainda assim, cheios de amor. Tenho mais medo de elogios vazios que
acomodam ao invés de questionamentos que incentivam. O efeito colateral da
critica, muitas vezes, é a transmutação interior daquele que tem coragem de
ouvir além de suas couraças da personalidade.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Entendendo melhor o que é feitiçaria em oposição à Magia Divina
Desenvolvendo mais o tema debatido no post anterior ( https://viveka1.blogspot.com/2020/02/nem-todos-os-caminhos-conduzem.html) , sobre a validade de diversos caminhos "espirituais", convidei um amigo, sério estudioso de magia, alquimia, ocultismo e hermetismo, para colaborar no blog com suas reflexões sobre a feitiçaria.
Creio que não preciso chover no molhado com vocês a respeito
disso, mas observar magia como uma ciência técnica permite avaliar com muita
clareza que a diferença entre as tradições de feitiçaria e de alta magia tem
como diferença um avanço tecnológico e de cosmovisão. Essa diferença não tem
relação apenas com a conduta ética ou não daqueles que empregam essas
tecnologias psíquicas. Trata-se de reconhecer que, da mesma forma que a
cirurgia cerebral feita por um médico romano oferece mais risco que aquela
feita por um médico moderno independente da boa vontade de ambos, o uso das
técnicas das tradições de feitiçaria tem malefícios que podem ser suprimidos
pelo emprego de técnicas de alta magia.
Feitiçaria é diferente de Magia
Divina
Texto de um convidado Anônimo.
É importante abordar de forma cuidadosa e com as devidas
nuances este tema, pois simplesmente dizer que algo é magia negra tem o efeito
de contar uma mentira. A pessoa volta e diz: "vocês dizem que é magia
negra, mas dai cheguei lá eles estavam fazendo um rito de cura e doando pra
caridade, logo vocês estavam mentindo”.
O que distingue uma tradição de feitiçaria de uma Tradição
esotérica que faz uso de magia é a inexistência da compreensão e emprego do
aspecto transcendente da realidade, superior tanto ao universo material quanto
ao psíquico.
Nas tradições de feitiçaria a magia é um continuo cabo de
guerra entre os diversos seres que precisam roubar, emprestar, tomar ou trocar
sua força. Os deuses não são mais que forças psíquicas personificadas e o
feiticeiro simplesmente escolhe um lado nessa teomaquia, sendo a barganha de
poder parte central da práxis. O poder do praticante de feitiçaria depende de um lado de sua
capacidade de cultivar relações com os seres do mundo psíquico/astral e por
outro de seu poder natural que pode ser desenvolvido por uma ascese mais ou
menos refinada.
As tradições mágicas diferem em um elemento principal, cujo
conhecimento é de origem místico e teúrgico, a existência de um plano superior
ao psíquico que simultaneamente detém três propriedades: a impassividade, a
capacidade de dar ordem e harmonia ao aparente caos do mundo psíquico e o poder
irresistível de comandar as forças.
Esses três aspectos são apenas a expressão de um mesmo
princípio que ordena, comanda e não é afetado pelo devir dos fenômenos. E,
diferente do feiticeiro, que serve a algum espirito ou força personificada, o
Magista lança mão de um recurso adicional em seus atos mágicos, a identificação
e emulação desse princípio transcendental. É pelo emprego do principio
transcendente que essa forma de magia passa a ser chamada de Alta Magia ou
Magia Transcendental.
Vale ressaltar que Magia Transcendental é inseparável e se trata
do ramo “aplicado” da Teurgia e do Misticismo. Assim, enquanto o Magista possui um poder
luminoso e harmonizado com os princípios superiores, o feiticeiro praticamente
ignora o plano Noético e se limita a dominar habilmente tudo que diz respeito
ao plano sensível. O Magista possui o poder da Glória, isto é, uma virtude que
o faz irradiar luz e fazer com que outros desejem imita-lo, ele possui
autoridade. O feiticeiro possui ganância de poder, ele constrange as forças a
agirem como ele deseja. Ele age através de um poder, mas não através de uma
Glória. O feiticeiro age como o poder dos arcontes, ele precisa de sacrifícios,
substâncias, cultos. Ele barganha com forças invisíveis, acumula poderes e se
alimenta de energias densas e sutis, ele não age através do poder da Luz. Ao
mesmo tempo, o feiticeiro é muito cobiçado pelas forças que estão em planos
sutis, astrais, e não estão encarnadas, pois estar em um corpo material é motivo
de cobiça para muitos desses. Assim, esse poder do feiticeiro, que muitas vezes
pode aparentar ser um “velho sábio” ou um “dominador de forças ocultas” vem de
energias de vibração mais densa, ainda presas à ignorância e aos vícios.
O poder do Magista emana do Absoluto, vem de dentro e é
impessoal. O Magista não precisa barganhar com o absoluto, ele apenas o
manifesta a partir de uma simbologia divina e uma ascese pura. O feiticeiro usa
forças externas, precisa se ligar a entidades, ou usar artifícios. Os
mecanismos são do plano astral.
É comum tentarem levantar o argumento da colonialidade para
tentar anular essa distinção com o argumento de preconceito cultural, evitando
assim analisar de forma sóbria as implicações reais de certas práticas. Uma das
implicações mais obvias é que as tradições de feitiçaria são predominantes em
todas as regiões do globo. Não se trata de racismo, não é uma questão de etnia,
mas de práxis. Encontramos práticas dessa natureza entre etruscos, hunos, tibetanos
e escandinavos, por exemplo. Por outro lado ouvimos referências a grandes
centros de saber espiritual ligados à Magia Divina na península de Yucatan.
De
toda forma, devemos considerar por exemplo que até a chegada dos filósofos e as
Escolas de Mistérios na Grécia e em Roma, as religiões locais nada mais eram
que tradições de feitiçaria, em grande parte necromântica, empenhadas em
guerras magicas entre cidades-estado e entre famílias. É possível ver uma
gradual mudança no cenário com a chegada do orfismo, pitagorismo e platonismo
especialmente, que curiosamente alegam origem egípcia ou babilônica. O que praticavam era a Teurgia.
O que me surpreende é que, dispondo de um centro cirúrgico
equipado, alguém procure por alguém com um cerrote para abrir seu crânio. Ser
um cirurgião dos tempos de Roma é mais fácil que um neurocirurgião moderno,
qual você escolheria para te guiar rumo à cura? Magia já é uma ciência oculta
perigosa. Torna-se devastadora se for separada de uma ascese ética, e pior
ainda quando faz uso de tecnologia psíquica arcaica.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020
Nem todos os caminhos conduzem à Iluminação!
Não, nem todos os caminhos conduzem à iluminação. Nem tudo é "teosofia". E sim, há caminhos para a Verdade
por Alaya Dullius
Quando compreendemos que há uma sabedoria imanente, perene,
que é subjacente a todas as tradições espirituais idôneas, estamos dizendo que
reconhecemos a unidade que permeia toda a manifestação de vida, que percebemos
a existência de uma Sabedoria Divina, uma Gupta
Vidya, que é a base fundamental das grandes religiões e tradições
filosóficas de nosso mundo, a isto chamamos tradição-sabedoria.
Ainda que em suas roupagens externas, em sua linguagem, “sistemas”
e “metodologias” encontremos muitas diferenças, à medida que nos aprofundamos
nesses caminhos vamos percebendo como as diferenças são apenas de estrutura de
linguagem, de grau de entendimento, de abordagem, cultura e época, mas que
apontam para um denominador comum, o pico da montanha da sabedoria, o cume da
iluminação.
Portanto, ainda que em seu trajeto inicial alguns caminhos
comecem em terrenos pantanosos e outros em densas florestas, ainda que alguns
cruzem rios e outros escalem cachoeiras ou tenham que lidar com as dificuldades
do deserto, esses caminhos, quando apontam para o mesmo pico nevado, terminarão
descrevendo a mesma realidade a medida que dela se aproximam, mudam apenas os
detalhes da trilha.
Esse elemento de unidade é o que chamamos de Sabedoria
Universal, e ao pressupor a existência dessa Verdade Una que está acima das
religiões, passamos a compreender que o que a Teosofia chama de “ramos da Fraternidade”
são esses caminhos – válidos -- que levam ao cume do saber e da libertação do
sofrimento. À medida que estudamos, aprendemos quais são alguns desses
caminhos, e por afinidade de alma e coração, por estilo interno e raio de
atuação, passamos a ter mais afinidade com um ou outro desses caminhos. E assim
podemos empreender nossa jornada!
Sabemos por exemplo que existem fraternidades secretas que
buscam a preservação desses ensinamentos, desses “mapas da trilha”, de modo que
o mapa não seja alterado, e possa continuar a ser usado por todos os viajantes
espirituais, sem que se percam. Mas sabemos também que há aqueles que têm claro
interesse no “roubo” desses mapas, e que, rasurando, desenhando em cima, e
alterando o rumo, vendem chumbo pintado, fingindo ser ouro... e pobre daquele
que compra um mapa adulterado, as vezes embalado de maneira mais ‘profissional’
que aquele velho papel amarelado e batido...
Sabemos que nessas fraternidades há guias experientes dos mais
elevados graus, e que eles não caminharão por nós, mas podem nos auxiliar nessa
jornada. Sabemos que no mundo perpetuaram (e perpetuam ainda) ensinamentos que
chamamos de, por exemplo, budismo mahayana, cristianismo e gnosticismo,
maniqueísmo, hinduísmo, yoga de Patanjali, orfismo, zoroastrismo, pitagorismo,
platonismo. Chamamos seus mapas de taoísmo, vedanta, islamismo sufi, drusos,
cabala cristã, rosacrucianismo, hermetismo, etc.
Sabemos que são reflexos também das chamadas “Escolas de
Mistério”, que foram surgindo e se preservando à medida que a humanidade de
ciclos anteriores passou a se degenerar e usar o conhecimento para fins
escusos. Essa degeneração é relatada como decorrente do uso indevido dos
poderes latentes em nós, do abuso de práticas animistas, voltadas à busca de
poder pessoal, egoísta. A degradação é decorrente da manipulação energética-psíquica
para fins de autogratificação ou até mesmo causar mal a terceiros. À medida que
os seres humanos se perderam no universo de deleites egoístas dos planos
inferiores da manifestação ansiaram por ter poder uns sobre os outros, o conhecimento
fechou-se e foi tornando-se cada vez mais esotérico, pois assim o caminho não
seria perdido.
Assim, o mapa seria preservado, e aqueles que ainda sentem
em seus corações a chama audaciosa do libertar-se de si mesmo em busca da luz
divina que em nós habita, incentivados por uma motivação de amor e compaixão
por todos os seres -- estes ainda poderiam ter acesso a esse caminho, mas
antes, deveriam purificar-se de toda vilania, intenções autocentradas,
motivações egoístas, e atitudes mesquinhas de vida que “poluem” corpo e mente. Fala-se muito no provérbio de “não atirar
pérolas aos porcos”, com um sentido de desprezo ao outro, o que é muito
negativo. Porém esquecemo-nos do outro trecho “não deis aos cães o que é santo,
para que não pisem e, voltando-se contra vós, estraçalhem”.
E é isso que ocorre nas tradições espirituais. Os mapas da
Montanha Sagrada são preservados para que não sejam estraçalhados por aqueles
que ainda possuem motivações egoístas, ainda que por vezes pareçam “refinadas”
e estejam disfarçadas de amor ao próximo. Ao preservarmos o mapa, ajudamos o
caminhante sincero a ainda ter acesso à estreita porta que leva aos Céus.
Por compaixão os instrutores que conhecem esse íngreme
caminho nos chamam a participar da jornada, mas antes precisamos limpar nossos
corações e ter certeza da motivação ao começar o primeiro passo. Pois assim que
caminhamos surgem aqueles “vendedores ambulantes” prometendo fórmulas que ao
ingerirmos vão “melhorar nossa resistência ao caminhar”, facilitar, acelerar...
surgem aqueles que querem te vender coisas que você não precisa, equipamentos “mais
modernos”, e estes só serão peso acumulado na sua mochila. Ou então te entregam
“mapas novos” pois aquela trilha lá foi “fechada pelo mato” (assim dizem,
apesar de não ser verdade). Surgem os “sherpas” se oferecendo para carregar o
peso por você, você só precisa oferecer algumas coisas a eles, nem sempre é seu
dinheiro... Há muitas distrações no inicio do caminho. Há muitos tentando tirar
vantagem do caminhante, e muitos caminhantes desistem da jornada e resolvem se
juntar aos vendilhões da trilha, tirando uma falsa vantagem pessoal nisso –
falsa, pois a lei do karma não tardará a ser aplicada.
No andar da Senda Espiritual o importante é não perder a
meta de vista. Alguns até oferecem serviços de guia na trilha, mas estão “fazendo
bico”, não passaram pela “formação”, não sabem agir no caso de emergências. E
sabemos bem o que acontece quando um cego guia outro cego. Outros começam bem seu caminhar, bem
intencionados, mas acabam em trilhas sem saída, esquecem-se da montanha e seu
pico ensolarado, e resolvem ficar analisando as árvores da floresta, as
criaturas do pântano pelo qual a trilha corta, ou as pedras daquele morro onde
pararam para descansar. Confundem a meta e ficam ali, esquecidos da motivação
inicial, às vezes incentivados por um guia que adora colher amostras de plantas
aquáticas, observar os girinos, ou olhar os pássaros em suas árvores, tornam-se
especialistas naquelas regiões, mas ali se esquecem... e quantos anos ficam
analisando o terreno, enquanto seus pés fincados no lodo afundam a cada dia que
passa, e quantas cobras não rondam essas águas lamacentas...
Assim, ainda que no dito popular todos os caminhos levem a
Roma, isso não é verdade quando falamos do trilhar espiritual. Perceber que há
muitos caminhos válidos, reflexos da mesma luz divina, certamente nos leva a
uma atitude de maior tolerância e fraternidade para com todas as pessoas.
Perceber que diversas tradições espirituais são mapas de acesso à mesma
Sabedoria Universal, e que seus caminhos são apenas faces diferentes daquela
montanha em cujo cume brilha o Sol da Vida, faz com que tenhamos mente aberta
para aprender com nossos irmãos, que seguem outras religiões ou filosofias; faz
com que possamos enxergar que o caminho é possível a todos, e que há uma luz
divina habitando em cada um de nós.
Entendemos que a linguagem e cultura que cada tradição se
manifesta é uma roupagem externa, e que ao nos abrirmos ao estudo comparado das
tradições, não são as roupas que estamos comparando -- isso seria superficial e
reducionista, para não dizer tolo. É no aprofundamento e real compreensão da
tradição que vamos aos poucos deixando a canoa para trás, quando conseguimos
atravessar o rio, quando o ensinamento se torna parte de nossa vivência. É no
profundo que a comparação é feita, é no profundo que a reta compreensão ocorre.
Um “ecumenismo” por cima é apenas um rolo compressor que destrói a meta do mapa
e tenta homogeneizar coisas que nem sempre se equalizam. E que não devem se
equalizar.
Portanto, admitir que haja muitos caminhos válidos, que
merecem ser estudados, que nos instigam a uma atitude de fraternidade e
respeito para com toda a humanidade, não é o mesmo que admitir que todos os
caminhos levem à meta nem é dizer que a Verdade é uma terra sem caminho -- isto
seria esquecer-se de todos os Mestres que ao longo dos séculos se esforçam para
manter acessa a luz de seus mapas e seria achar que precisamos reinventar a
roda, redescobrir o fogo; uma grande petulância, como sair como um capitão do
mato cortando a vegetação densa com facão quando há caminhos possíveis, prontos
para serem seguidos, basta que você tenha a humildade de se comprometer com o
serviço.
Não, nem todos os caminhos levam ao pico montanhoso. Nem
tudo que reluz é ouro. Nem tudo que aparenta ser espiritual é válido. Alguns
caminhos te afastam da montanha. Alguns aparentam se aproximar e terminam no
meio da jornada, em algum deserto sem vida, em algum pântano de enganações.
Em ciclos anteriores da humanidade ensinamentos foram
deixados para trás, e seus resquícios lutam em permanecer ativos ainda hoje,
mas se é que algum dia tiveram algo luminoso em si, hoje são uma casca de
animismo psíquico e devaneios do plano astral. Há caminhos que se ocupam com as
camadas inferiores da manifestação, que se entrelaçam dando voltas e voltas nas
camadas do mundo sensível, mais confundindo do que guiando. Há caminhos que não
ensinam o ser humano a se libertar do que em teosofia chamamos de “quaternário
inferior”, do que no gnosticismo chamamos de “o mundo dos arcontes”, não, eles
mantém o incauto preso, dominando técnicas desses subplanos, mas nunca
libertando a alma para o Pleroma, para o mundo Inteligível, para além dos
grilhões do ego e da auto-ilusão.
Insistem em chamar de espirituais planos psíquicos inferiores,
ainda dominados pelo maya da ignorância. Confundem os arquétipos divinos com
entidades astrais, e chamam de “deuses” aqueles que como vampiros sutis se
alimentam da energia de desejo e ganância dos viventes. Suas promessas de serem
um método mais rápido, natural, sem auto sacrifício, agradam o ego. Mas a
Doutrina Secreta nos ensina que o universo é cíclico, e que alguns ciclos devem
terminar. Aquilo que deu errado e afundou civilizações inteiras em um pesado
karma devido à prática do que hoje chamamos “feitiçaria” não deve ser reavivado
nem equiparado às tradições de mistério que verdadeiramente libertam a alma
através da magia divina e do caminho altruísta. Aquilo que em diversos povos e
civilizações voltou-se a praticas de fetichismo, “magia cinzenta”, domínio
sobre poderes sutis para fins pessoais e uso de práticas que envolvem
substâncias ou o uso de elementos de material etérico não é o caminho proposto
pela Sabedoria Divina.
O caminho da luz parte de uma chama interior no centro da
caverna do coração, e a única coisa que pode auxiliar que cada buscador em sua
jornada não se perca entre as diversas trilhas, caminhos falsos, vegetações
densas, e vendilhões enganados ou mal intencionados, é Viveka, a jóia do
discernimento. Não é possível servir a dois reis, disse um Mestre certa vez. É
preciso separar o joio do trigo, identificar o lobo em pele de cordeiro, não
cair na lábia dos falsos profetas, dos xamãs da selva de pedra, dos gurus da
modernidade. É preciso ter plena atenção, foco no pico da Luz, e muito
discernimento. À medida que avançamos na trilha, passamos a ver quantas
armadilhas evitamos, e quantas caímos. Feitiçaria é feitiçaria, mesmo pintada
de purpurina para agradar a relatividade das personalidades. O mundo dos
arcontes tenta agradar, mas não é o Pleroma Celeste, não conduz ao Nirvana.
No seu caminhar, ninguém pode carregar sua mochila por você.
Que um coração amoroso, um desapego de si mesmo, e a luz do discernimento possa
te guiar. Não há nada mais nobre do que a oportunidade de servir à humanidade através da compaixão e do despertar da sabedoria. Que sua alegria seja a luz de Viveka guiando teu coração.
******--- Acompanhe amanhã, postarei de um convidado anônimo, um aprofundamento no entendimento do que é de fato "feitiçaria", a partir da perspectiva da Magia Divina
CLIQUE NO LINK https://viveka1.blogspot.com/2020/02/entendendo-melhor-o-que-e-feiticaria-em.html
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